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A importância estética do cangaço para a memória histórica e cultural brasileira

  • Foto do escritor: Varelaal
    Varelaal
  • 30 de jan. de 2018
  • 3 min de leitura

O cangaço para além de um movimento social advindo do banditismo tornou-se ao longo dos anos, a partir da sua compreensão histórica e mítica, um símbolo cultural nordestino podendo ser assim assimilado tanto pelo propósito idealizado ou realista de exaltação, como pela negação dos seus feitos como gloriosos, os colocando em uma posição marginalizada e/ou de vilania.

E é justamente a partir dessa compreensão complexa de contrapontos que o cangaço faz-se imponente sua existência, mexendo com o imaginário popular e a narrativa histórica.

Nesse sentido, debruçar-se sobre o cangaço é um mergulho fascinante na identidade popular e seu desbravar criativo, altivo e original; uma vez que a ideia de orgulho ligado a rebeldia, insubordinação e insubmissão está presente em nossa própria concepção inicial e que foi reafirmada em diversos momentos da nossa história; desde os levantes indígenas, a formação de quilombos e outras insurreições populares concebidas nas entranhas da sociedade brasileira, que na maioria das vezes, devido a repressão concebida das mais variadas formas, impediam a herança material desses movimentos, numa tentativa de apagar suas existências.

Logo, o papel do cangaço passa a ser o de retomada de uma narrativa popular autêntica, não se limitando a sua finalidade de existência, mas sendo capaz de transcender sua própria existência.

Posto isso, a ideia plástica que reside no movimento é fundamental para essa sobrevivência cultural, uma vez que permeia as bases da construção coletiva de um povo, se impondo, não pela ideia de composição em reeditar padrões e sim pela ideia da projeção do homem; elemento esse trazido em escritos de Gilberto Freyre, que pondera sobre a arte brasileira dizendo que esta sofreu uma descaraterização a partir da educação religiosa que tivemos no período colonial, onde os jesuítas cercearam uma provável arte de projeção do homem.

Nesse sentido, o cangaço rompe essa ideia, trazendo um impacto estético, a partir de uma complexidade funcional de seu traje, escancarando e reafirmando a existência rural do nordeste brasileiro, como bem traz Frederico Pernambucano de Mello em seu livro "Estrelas de couro: a estética do cangaço"; o cangaço aglutina o perfil do vaqueiro a uma sofisticação visual e de estilo, a partir do uso ostensivo de jóias, perfumes, consumo de bebidas finas e um zelo meticuloso em sua própria ornamentação, sendo tais características uma primazia de liderança e imponência de poder; as habilidades de costura, por exemplo, eram ponto importante no leque qualitativo para liderar um bando.

Diante disso, o cangaço emerge como uma variação ou subcultura do meio pastoreiro do vaqueiro no nordeste, uma vez que traz características que não habitam a arte popular, pois se constrói em situação de singularidade, diante de uma circunstância de conflito, por isso, também estão presentes, nessa construção criativa de sua estética, diversos sinais de proteção, que acabam se tornando elementos existenciais na formação cultural do cangaço, como por exemplo, os signos de salomão ( Espécie de talismã que emana sinais de defesa espiritual contra possíveis malefícios).

Sem mais, a importância fundamental de se discutir o cangaço é elevar as perspectivas de compreensão sobre as narrativas históricas que se estabelecem e nos afetam, diante da complexidade em que se constrói tal movimento.


... também compunham o ornamento do cangaceiro entre vestes e outros apetrechos: luvas de couro (para facilitar o desbravar pela caatinga, tanto que estas não prendiam os dedos); apito (para os sinais de comando, geralmente portados pelos líderes); revolve ou pistola; fuzil ou rifle; facão (para carnear e abrir caminho no mato); cantil (como esquentava com facilidade, usavam de preferência para levar bebidas alcoólicas e não água); caneco, carteira de couro (com o prato de estanho e colher); cabaça (com água, já que mantinha uma boa temperatura); tubo ou canudo (para levar objetos que não podiam ser molhados).


Bibliografia

MELLO, Frederico Pernambucano de, Estrelas de couro: a estética do cangaço. Escrituras, 2010.

<http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/a-moda-de-lampiao-26ohoct3wvy2p0942qutg2pu6> Acesso em 29 de Janeiro de 2018.

Documentário "A Estética do Cangaço" por Frederico Pernambucano .





 
 
 

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