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Discutindo o cangaço

  • Foto do escritor: Varelaal
    Varelaal
  • 15 de jan. de 2018
  • 3 min de leitura

O Brasil do final do século XIX e início do século XX atravessava um período de instabilidade, uma vez que a queda da Monarquia e ascensão da República mudou a forma de governabilidade do país, que com a instauração do presidencialismo teve de se adaptar a um novo cenário político, que nem mesmo contava com um projeto de governo, fundamentado por bases sólidas capazes de concretizar as novas perspectivas. Nesse contexto uma série de movimento e revoltas tomaram conta do país, sem um mesmo liame ideológico, mas advindas como resposta a situação político-econômico-social em que o país se encontrava. Um desses movimentos foi o cangaço, eternizado no imaginário popular nordestino, através da complexa figura de Lampião, líder de um dos principais bandos de cangaceiros do período. O contexto político, no qual o país se encontrava no final do século XIX e início do século XX contribuiu para o avanço do coronelismo, isto é, as relações sociopolíticas eram pautadas na troca de favores entre aristocratas, logo aumentando o poder das oligarquias, criando uma rede de alianças e rivalidades. O Nordeste nesse período, como ainda hoje, sofria com a concentração de terras, gerando assim uma grande desigualdade social, uma vez que, terra, se confundia com a própria definição de poder. Esse fato acabava por deixar o povo numa situação de vulnerabilidade, estando esse completamente submisso ao controle das oligarquias, que ainda se utilizavam da seca para oprimir os sertanejos, fazendo de uma característica natural, um meio de opressão, que dura até hoje. Diante desse cenário surge o banditismo social, consagrando o cangaço. Vale ressaltar que o termo banditismo já era aplicado para grupos armados, que desde o século XVIII, atuavam, a partir da contratação de coronéis para tomar terras de outros fazendeiros, como também de indígenas. Toda via, no início da República, alguns desses bandos, como o lendário bando de Lampião, ganhou tamanha força que sua atuação passou a ser independente do mando de terceiros, causando grande reboliço social nas cidades nordestinas com seus temidos saques. É importante atentarmos para a construção cultural do cangaço, se visitarmos diversas cidades do Nordeste, encontraremos no imaginário popular heroísmo e vilania na figura dos cangaceiros, enquanto alguns pensam eles como uma espécie de Robin Hood brasileiro, que tirava a riqueza dos ricos para dar aos pobres; outros os veem como criminosos cruéis que matavam e torturavam por diversão. Dessa forma, julgar a qual lado o cangaço pertence é uma visão rasa e pouco coerente com o contexto em que o movimento está inserido, sendo indispensável a compreensão de como a sociedade absorveu esse momento histórico; a questão é muito maior e mais complexa que essa dicotomia de mal e bem, afinal o fundamental é entendermos o processo histórico que levou ao surgimento desses grupos e assimilar que o cangaço é fruto de uma sociedade opressora e violenta. E, portanto, a resposta dada pelo movimento é de mais violência, criando assim, um ciclo marcado por sangue e horror, como fica claro a partir da criação das "volantes", que eram grupos armados criados para combater o cangaço. Partindo dessa perspectiva, um elemento extremamente relevante é o ideal de "Cabra macho", que vemos enraizado em nossa cultura das mais variadas formas. Mas o que seria isso? O conceito de valentia está associado a violência, um exemplo claro disso é quando um pai fala para o filho revidar um bullying sofrido na escola, ou quando um colega bate em outro e quando chega em casa, muitos pais dizem que o garoto vai apanhar de novo para aprender a ser macho. Esses exemplos tornam explícitos como nossa cultura, que é resultado de um processo histórico recai na vida cotidiana. E como os costumes compreendidos dentro de uma sociedade patriarcal tem um caminho baseado em opressão e machismo que fundamenta as ações e reações da nossa sociedade.


 
 
 

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